Educadores de creche: concepções e práticas

Eulina da Rocha Lordelo

Resumo


Em vista da importância das concepções vigentes na cultura, e mais particularmente entre os agentes responsáveis por organizar e prover o cuidado à criança, na qualidade da experiência da creche, o presente estudo se propôs a investigar concepções e práticas de cuidado entre os trabalhadores de uma creche pública da cidade de Salvador. Um total de 45 trabalhadores (90% da população de funcionários da creche) responderam a um questionário, com perguntas abertas e fechadas, incluindo uma escala de ordem de importância de 10 fatores selecionados como aspectos relevantes para a qualidade da creche; ao mesmo tempo, quatro classes da creche foram observadas em períodos diários de 10 a 15 minutos, cobrindo-se as principais rotinas da creche, como entrada, brinquedo livre, refeições, banho e atividades programadas. Categorias de atividades do adulto foram elaboradas com base nos comportamentos observados e suas freqüências, calculadas por grupo. Escalas de ordenação dos itens avaliados foram construídas para cada grupo, através do cálculo das posições médias encontradas. Os resultados encontrados indicam um modelo de creche – em termos de concepções – que pode ser denominado higienista, em que a creche é vista como um lugar responsável pela guarda e desenvolvimento físico da criança. As concepções inferidas estão, em geral, de acordo com as práticas vigentes, com a prevalência de cuidados físicos e atividades ligadas à fiscalização e controle do comportamento da criança. Atividades pedagógicas apareceram apenas na classe de 4 a 5 anos (jardim) e o nível de interação relacionada ao brinquedo da criança (Contato lúdico e Atividades recreativas) representou menos de 10% do total das atividades do adulto. Esses resultados são interpretados como indicadores de que a experiência da creche para as crianças expostas a esse modelo pode estar ainda muito distante das necessidades de seu desenvolvimento integral. A reorientação das políticas de creche é vista como indispensável, independentemente da melhoria das condições materiais disponíveis, uma vez que diversas experiências indicadas na literatura vêm apontando efeitos marcantes de mudanças na organização da creche sobre a qualidade da experiência da criança.


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DOI: http://dx.doi.org/10.5380%2Fpsi.v2i1.7650

Interação em Psicologia. ISSN: 1981-8076